AMADO JORGE: ESCREVO ESTAS MAL TRAÇADAS LINHAS...
Márcia Rios – UNEB/Ufba
Sou apenas um admirador entre os muitos outros que há não só pelo Brasil, mas por outras partes do mundo.
Leio pouco, mas admiro as maneiras com que um escritor coloca seus pensamentos num pedaço de papel e desenrola toda uma série de sentimentos que a vida lhe concedeu. (carta de um leitor)
São livros que tocam o íntimo de qualquer pessoa que os lê. (carta de uma leitora)
Penso que depois de escrever um livro tão grande assim, é necessário dormir uma semana, para recuperar as forças. (de uma leitora, referindo-se a Tieta do agreste).
As falas vitalizadas, inusitadas e muitas vezes óbvias dos leitores de Jorge Amado encontram-se distantes de instâncias acolhedoras, consagradoras e legitimadoras da atividade literária, são alheias ao metier artístico e à academia, ignoram a crítica especializada. Distantes estão essas falas em relação aos modos recomendados, tradicionais de ler uma obra literária e nela ver suas ambigüidades, sua literariedade, decifrar sua “essência”, flagrar a sua “profundidade” ou apreciar o seu valor estético.
Mas será que tão distantes assim? Quando o leitor da carta acima, de modo tão acanhado, modesto, expressa - “admiro as maneiras com que um escritor coloca seus pensamentos num pedaço de papel...”, não está insinuando um saber sobre o fazer literário e que esse “fazer” é um ato de ficcionalização do mundo, da vida, “num pedaço de papel”? E derivado de um cabedal de experiências (“uma série de sentimentos que a vida lhe concedeu”)? No segundo trecho transcrito da carta, não estaria a leitora próxima a uma visão platônica de arte ao afirmar que os “livros” de Jorge Amado – ainda que a obra seja mencionada de modo tão palpável, que se pode pegar – os “livros” (e não a obra, o texto ou criação) – “tocam o íntimo”, íntimo também conhecido como “interioridade”, “espírito”, esferas tão caras à alta literatura? Em relação ao último trecho transcrito, não teríamos uma idéia nietzschiana do fazer literário enquanto labor, entrega, desprendimento de energia, – “um livro tão grande assim”, “necessário dormir uma semana para recuperar as forças”?
De repente me dou conta de que quero salvar as falas desses leitores, afirmando não estarem elas tão distanciadas, como se poderia pensar, do campo instituído da literatura! É preciso legitimá-las! É isso? Proponho-me analisar as cartas dirigidas ao escritor Jorge Amado por seus leitores e fãs, arquivadas em seu acervo pessoal, datadas entre 1974 a 1996, com o objetivo de discutir a recepção literária. Nessas milhares de cartas empilhadas no acervo, encontram-se histórias de vidas invisíveis, ordinárias (emprego a última expressão em seu sentido menos contaminado possível), que foram agora acolhidas por uma pesquisadora com formação acadêmica e erudita!
Como resolver esse embaraço para quem se propõe a analisar falas desprezadas pelo reino da cultura superior? Será que eu não estaria pressentindo uma diluição de fronteiras e constatando um imbricamento e até mesmo aproximações dos valores da alta cultura com os da baixa cultura? Certamente, sim. Contudo, apesar da pertinência das colocações, essa constatação não dá conta da singularidade dos textos (das “Cartas de fãs”): encontro-me diante de falas “menores”, provenientes de contextos socioculturais diversos, exigindo-me averiguar “quem são esses remetentes”, “o que desejam”, “como lêem Jorge Amado”, “por que lhe escrevem”; estou diante de modos de ser e de protocolos de recepção distintos, o que me leva a depreender diferenciados “modos de ler” nesse diálogo com o escritor.
Creio no investimento dessa escolha, uma vez que as correspondências dos leitores de Jorge Amado, além de serem a produção de uma fala subjetiva, resíduos de um cultura (no sentido dado por Raymond Williams em Marxismo e literatura), constituem-se em documentos da memória cultural, relevantes para uma discussão da dimensão cultural da recepção literária. Interessa-me aqui analisar, através de uma forma “clássica” de comunicação, os pactos de leitura presentes nesse diálogo com o escritor, visando uma explicação do fenômeno de recepção Jorge Amado; nessa empreitada, serão consideradas a disseminação de suas narrativas para as linguagens de largo acesso, as da cultura midiática, e a sua trajetória política e intelectual, aspectos que contribuíram para torná-lo um mediador cultural e uma figura canônica, na contramão da crítica universitária.
Recorro a Gianni Vattimo para pensar essas falas menores. Para ele, o que caracteriza a pós-modernidade é o advento dos mass media, juntamente com a crise da idéia de história como curso unitário. Assiste-se, na contemporaneidade, a uma explosão de histórias, à multiplicação de meios de comunicação, que levam a uma “dissolução de pontos de vista centrais”[1]. Ainda segundo Vattimo, “esta multiplicação vertiginosa da comunicação, este ‘tomar a palavra’ por parte de um crescente número de subculturas, constitui o efeito mais evidente dos mass media,(...)”.[2] Nessa vaga de explosões, emergem racionalidades locais, práticas e valores mantidos à sombra pela cultura dominante, que elege algumas práticas para dar conta de uma totalidade. É importante destacar que essa “multiplicação vertiginosa da comunicação”, com as redes informáticas principalmente, tornou-se possível pelas novas tecnologias. No entanto, a comunicação eletrônica e a informatizada não eliminou as formas tradicionais de comunicação – e aqui encontram-se as cartas –, aquelas caracterizadas como mídia clássica, de acordo com Pierre Lévy[3].
As cartas desempenham ainda uma função efetiva, sobretudo quando se constata que a aquisição de bens materiais e simbólicos nos países periféricos não é partilhada de forma equalizada por todos. Lembremo-nos de Dora, personagem do filme Central do Brasil, que, como os logógrafos da Grécia antiga, escreve cartas, tece fios; são discursos por encomenda, para os que não possuem a habilidade da escrita alfabética. No filme, a correspondência, antiga forma de comunicação, é uma escrita pessoal em que vidas são traçadas, expectativas são lançadas, destinos são tramados, a exemplo do ocorrido com o garoto Josué, em sua busca pelo pai. As cartas revelam, assim, sua força na fábula cinematográfica, artefato da era da reprodução técnica, como afirmara Walter Benjamin. Com seu efeito de pharmakon, remédio/veneno, elas veiculam boas e más notícias, desviam rotas, algumas vezes por decisão de Dora. Através das cartas, as subjetividades e afetos de uma cultura são produzidos e podem ser pensados.
Com o advento das comunicações de massa, especialmente com a mídia eletrônica, a correspondência coloca-se, no dizer de R. Williams, como uma forma residual a se cruzar com outras práticas discursivas. Segundo o teórico inglês, um processo cultural, por apresentar determinadas características dominantes em uma determinada época, é tomado como sistema cultural, com a pretensão de dar conta de uma totalidade. Contudo, acrescenta ele, em uma análise histórica, para se dar conta de fato da “totalidade” do processo cultural, torna-se inevitável compreender como ocorrem as inter-relações entre movimentos e tendências dentro da cultura dominante.
Para Williams, enquanto o emergente diz respeito à criação contínua de “novos significados e valores, novas práticas, novas relações e tipos de relação”, o “residual, por definição, foi efetivamente formado no passado, mas ainda está ativo no processo cultural, não só como um elemento do passado, mas como um elemento efetivo do presente”[4], ao contrário do arcaico, que se apresenta como um elemento do passado e é tido como tal.
A noção de residual não deve ser entendida, assim, apenas pelo anacronismo das cartas, enquanto veículo de comunicação, em meio a uma tecnologia arrojada de informação no mundo contemporâneo; o “residual” compreende as formações culturais surgidas no passado, são os valores construídos, atuando ainda no sujeito, dando sentido às nossas existências, pois são formações de que somos feitos: nossa história familiar e cultural, a nossa memória. Estas formações podem ser flagradas no texto epistolar e sobre elas se podem pensar, enquanto práticas subjetivas e culturais. De acordo com o autor, “certas experiências, significados e valores que não se podem expressar em termos de cultura dominante, ainda são vividos e praticados à base do resíduo - cultural bem como social - de uma instituição ou formação social e cultural anterior”[5]. Ele deve ser articulado, assim como o “emergente”, com a cultura dominante, e possui com ela uma relação alternativa ou oposta, ou ainda pode ter sido incorporado pela cultura hegêmonica. Os elementos residuais vêm de formações sociais anteriores e “parecem ter significação porque representam áreas da experiência, aspiração e realização humanas que a cultura dominante negligencia, subvaloriza, opõe, reprime ou nem mesmo pode reconhecer”[6].
Com a hegemonia da comunicação midiática, o texto epistolar, além de seu caráter residual, tem sua função de “exercício pessoal”, segundo Foucault[7]; fertiliza o imaginário do leitor por tornar possível uma proximidade com o interlocutor, objeto de admiração: momento em que o leitor se pronuncia efetivamente em relação a si e ao outro, quando confere ao seu papel de leitor uma existência “real”; a prática epistolar revela, acima de tudo, uma qualidade do modo de ser (“a carta, texto por definição destinado a outro, dá lugar também ao exercício pessoal”). “A carta que se envia atua, pelo próprio gesto da escritura, sobre aquele que a envia, assim como atua, pela leitura e releitura, sobre aquele que a recebe”[8].
“Escrever é, portanto, “se mostrar”, se fazer ver, fazer aparecer sua própria imagem perto do outro. (...) a carta é, às vezes, um olhar que se lança sobre o destinatário (pela carta que ele recebe, ele se sente olhado) e uma maneira de se dar a seu olhar pelo que diz a ele de si mesmo”[9]. A correspondência ganha uma significação para o leitor: a sua letra (a caligrafia) e a sua assinatura no corpo da carta o tornam próximo, familiar ao escritor, que se vê, também, multiplicado pelas imagens que o leitor cria dele, contaminadas pelas fábulas de sua produção literária.
Na leitura das cartas enviadas a Jorge Amado, pode-se flagrar “um contato vivo da obra literária com os seus leitores” – como afirma H. R. Jauss, em seu programa da “estética da recepção”[10]. A história da literatura passa a ser construída, agora, através das leituras, variáveis, porque o leitor situa-se em um campo discursivo que é histórico, tese que desestabiliza a historiografia literária, em sua perspectiva nacionalista e diacrônica, visando ainda a eleição de um canône. Embora Jauss não problematize o lugar do público no contexto na cultura midiática, nem considere as leis de mercado que conferem à obra literária um valor de troca, e não apenas um valor estético, esse momento de virada contribui para a discussão aqui proposta.
Para além de uma apreciação estética da recepção, recorro a Jesús Martín Barbero[11], que pergunta o que significa a recepção, ante as mediações, o sentido e o tipo de mediações. A recepção, segundo Barbero, deve ser analisada como ponto de partida, isto é, de produção de sentido, e não de chegada; um lugar, e não uma etapa, atravessada por mediações diversas. Em seus estudos, ele contempla os modos populares de recepção, deslegitimados pela cultura erudita, enfoque instigante para se pensar a recepção amadiana.
As cartas dirigidas a Jorge Amado trazem pequenas histórias, são micro-relatos de vidas ordinárias que se tecem de modo invisível no cotidiano de cada um, no dizer de Michel de Certeau; através delas, se podem “capturar” demandas, expectativas e interesses diversos, por parte dos remetentes, momento em que se podem discutir as ressonâncias da produção cultural de Jorge Amado, assim como a sua legitimação enquanto mediador cultural. Nelas, o receptor se pronuncia em relação às “impressões” de leitura das obras, revela acompanhar a vida social e cultural institucionalizada do escritor, elege-o mediador de suas demandas, dá-lhe e solicita conselhos, cobra posição política, apresenta-lhe idéias para romances, dá testemunho de mudanças de sua vida privada (do leitor). Em muitos casos, nas estórias narradas, os remetentes, imaginariamente, colocam-se como protagonistas de possíveis tramas a serem tecidas pelo escritor. Muitas vezes, em um tom familiar e prosaico, o leitor estabelece uma relação em que a recompensa (simbólica e às vezes material) ou reconhecimento enquanto leitor são pretendidos.
O êxito de Jorge Amado pode ser discutido, portanto, por essa relação com o leitor e pelo modo como ele articula “temas marginais” com formas estéticas da cultura letrada e estratégias de mercado próprias da cultura hegemônica. Abrindo mão da “estética da elipse”, que “requer a existência de um leitor culto”, Jorge Amado adere à “estética da redundância”, tomando aqui de empréstimo a Silviano Santiago estes dois conceitos apresentados em seu ensaio “Fechado para balanço”[12].
A sua produção, inserida nas leis de mercado, desmistifica a “atividade artística”, na versão elaborada pela alta modernidade estética, em que as idéias de sublime, de epifania, envolvem o ato de criação. O êxito editorial do escritor, fortalecido pelas traduções em diversos países, nos leva a pensar: por que não vencer a resistência e tratar a literatura e a cultura brasileira, discutindo a “sedução” da obra amadiana nesse trânsito da serialização? Por que a recusa em considerar o caráter institucional e de mercado da literatura (livro/artefato/objeto)?
Os leitores já responderam!
[1] Cf. Gianni VATTIMO. La sociedad transparente. Barcelona: Ediciones Paidós, 1996. p.78
[2] Id., p. 80
[3] Cf. Pierre LÉVY. A ‘netiqueta’ do ciberespaço. Folha de São Paulo. Caderno MAIS (9/11/1997) p.5
[4] Cf. Raymond WILLIAMS. Marxismo e literatura. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. p.125
[5] Id., p. 125
[6] Id., p. 125
[7] Cf. Michel FOUCAULT. L’ecriture de soi. In: L’Autoportrait. Paris: Presses Universitaires de France, no. 5.
[8] Id., p. 12.
[9] Id. p. 16-7
[10] Cf. Hans Robert JAUSS. A história da literatura como provocação à teoria literária. São Paulo: Ática, 1994.
[11] Cf. Jesús Martín BARBERO. América Latina e os anos recentes. In: Mauro Wilton SOUSA (org.). Sujeito, o lado oculto do receptor. São Paulo, Brasiliense, 1995 e Pre-Textos; conversaciones sobre las comunicaciones e sus contextos. Santiago de Cali: Editorial Universidade del Valle, 1996.
[12] Cf. Silviano SANTIAGO. Fechado para balanço. In: Nas malhas da letra. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.